WOMEN OF SREBRENICA  –  11.07.2025

Estas mulheres perderam pais, maridos e filhos no genocídio de Srebrenica, em Julho de 1995, durante a guerra da Bósnia-Herzegovina, quando tropas sérvio-bósnias assassinaram 8372 homens e rapazes muçulmanos. Todos os anos, a 11 de Julho, estas mulheres sepultam os restos mortais de mais e mais familiares, descobertos em valas comuns, numa cerimónia religiosa no memorial de Potocari, em memória das vítimas do massacre. A guerra acabou, mas este cemitério está incompleto. Trinta anos depois do genocídio, estas mulheres estão vivas para viverem uma dor que nunca terá fim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

JORNAL PÚBLICO  |  12.JULHO.2025

 



 

BÓSNIA-HERZEGOVINA

Nas ruas da Bósnia-Herzegovina as marcas da guerra de há 30 anos continuam presentes nos edifícios e fazem parte do dia-à-dia. Ao fim de pouco tempo, os tiros, as rajadas de metralhadora, os morteiros inscritos nas paredes adquirem uma presença estranhamente familiar.

Todos nós tendemos a dar interpretações poéticas ao que nos rodeia, a romancear, a idealizar, no fundo, a encontrar um significado. Tudo é mais suportável dessa forma. No meu caso, quis ingenuamente acreditar que estas cicatrizes eram deixadas propositadamente nas paredes, de forma a haver uma memória colectiva permanente sobre o mal, sobre o que um ser humano é capaz de fazer a outro, sobre a loucura colectiva. Como se de um alerta se tratasse!

Perguntei ao Adnan (guia da viagem) se era mesmo assim. A resposta revelou-se mais básica. “Rui, é só mesmo porque as pessoas não têm dinheiro para arranjar”. Esse mesmo guia, cidadão de um país onde convivem e sempre conviveram cristãos, protestantes e muçulmanos, também me recordou algo ainda mais básico. “A maior parte das pessoas só quer viver bem entre elas. Viver sem problemas. Não esquecem a guerra, estão com receio e vivem sempre em tensão, mas querem andar para a frente. A culpa é das classes dirigentes que manipulam uns contra os outros numa lógica de poder. Depois, há os mais perigosos, os rurais.” Expressão curiosa, fiquei intrigado sobre quem seriam… Percebi, então, que dava o nome de rurais às “pessoas esquecidas do interior, às pessoas que não fazem parte das elites, às pessoas das classes sociais mais baixas que viram na guerra uma oportunidade para terem algo que nunca tiveram, como a casa ou o carro do vizinho, não olhando aos princípios básicos de convivência, à ética e às leis.” Foram instrumentalizadas, mas quiseram ser instrumentalizadas, pois viram na guerra uma oportunidade de subir na vida.

E, assim, numa conversa de carro a 50km à hora, algures numa serra em direção a Sarajevo (nesse dia ainda passámos pela Ponte Latina onde foi assassinado o Franz Ferdinand e começou a 1ª guerra mundial), o Adnan ajudou-me a compreender um pouco mais sobre o nosso actual contexto e sobre a psicologia humana, onde vivemos um desvio permanente para o nosso ponto de vista individual, e não pensamos enquanto comunidade.

Estes tiros, rajadas de metralhadora, morteiros podem não ter sido deixados propositadamente, mas mesmo assim podem cumprir o imaginário que lhes quis atribuir. Reflectir. Relembrar que os efeitos de uma guerra perduram muito mais do que a sua duração e não impacta apenas na geração que a viveu.

Ao ver as imagens que nos chegam de Gaza só podemos concluir que mesmo que a guerra termine amanhã, vai perdurar dentro de cada pessoa e dos seus filhos por várias décadas. A guerra não termina com o baixar de armas, nem com a distribuição misericordiosa de alimentos e medicamentos. Apenas terminará quando todos os cidadãos forem respeitados na sua dignidade e direitos.

 

 

JORNAL PÚBLICO  |  11.JULHO.2025