“VITAIS” é um projecto fotográfico sobre mulheres de diversas idades, origens, experiências e áreas que, actualmente, desenvolvem trabalhos ou pensamentos disruptivos nos domínios cultural, social, académico e científico, com impacto na transformação de hábitos e mentalidades em Portugal. O objectivo é destacar mulheres que persistem, resistem e não desistem.

“Há um movimento global das forças de direita no sentido de apagar estes conteúdos. (..) A emancipação das mulheres foi uma grande conquista do século XX e agora vemos jovens a dizer que as namoradas têm de lhes obedecer e que querem controlar a forma como as raparigas se vestem. As mulheres vão ser as principais vítimas destes movimentos”
DANIEL SAMPAIO, PSIQUIATRA / Jornal Expresso
CONTEXTO
Vivemos um tempo de indefinições, receios e desequilíbrios, que provocam mudanças de paradigmas na sociedade em geral — e nas mulheres em particular. Mas também vivemos um tempo de grande dinamismo. Há sinais de um país mais justo, é certo, mas essa mesma dinâmica acarreta novos desafios: transformações nos conceitos de família e maternidade, lutas de género, aumento do machismo e do sexismo entre as gerações mais jovens, crise no acesso à habitação, gentrificação, êxodo de jovens em busca de oportunidades, e um crónico desequilíbrio de oportunidades entre homens e mulheres.
Durante séculos, as mulheres enfrentaram constrangimentos de várias ordens: dificuldades de acesso ao ensino, restrições à mobilidade e à independência, e normas familiares marcadas por lógicas patriarcais. Algumas dessas barreiras foram superadas recentemente, mas os condicionamentos de ordem cultural e simbólica permanecem, mais subtis e enraizados. Ainda há um longo caminho a percorrer até se alcançar uma igualdade plena e efectiva.
Contudo, muitas mulheres continuam activas na procura de alternativas e novos modelos de viver, pensar e transformar o país e o mundo. Algumas fazem-no há décadas, outras estão agora a começar. Algumas inserem-se em estruturas institucionais, outras actuam a partir das margens. Algumas têm visibilidade pública, outras permanecem quase anónimas. Mas todas partilham uma visão, uma utopia, uma inquietação ou um sonho — e uma luta da qual não desistem.
Este projecto inspira-se também em mulheres portuguesas que marcaram a história com o seu pensamento e acção, como Aurélia de Sousa, Catarina Eufémia, Helena Almeida Maria Lamas, Beatriz Ângelo, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa — estas três últimas conhecidas como As Três Marias, autoras de uma das obras mais marcantes do feminismo português. São referências históricas que, cada uma à sua maneira, abriram caminhos de resistência, criação e emancipação.
“VITAIS” procura, assim, dar rosto a algumas das mulheres que hoje ousam continuar a sonhar — e a agir — para lá do que se vê.
PARA A CONCHA
Tenho bastantes dilemas na educação da minha filha. A espuma dos dias faz-nos derivar sobre o essencial e as nossas imperfeições e incoerências fazem-nos duvidar sobre quais as respostas para o que é importante. Que modelos escolher? Quais as referências? Como educar uma adolescente no meio de tantos estímulos a que está sujeita? A que deve estar exposta e em que idade? Estou certo, estou errado? Acredito, no entanto, que a forma mais eficaz de educação é o exemplo. E este trabalho tem esse propósito, deixar exemplos, dar pistas, partilhar experiências, mostrar modelos de mulheres que nunca desistem. No fundo, referenciar várias mulheres que conferem uma dinâmica de mudança. Dar relevo a quem está nos bastidores, quem está nos nichos ou não tem cobertura mediática, mas também quem já tem um percurso e visibilidade. E esperar que esteja a contribuir para a educação da minha filha e concretização dos seus sonhos, sem nunca abdicar de uma perspectiva de comunidade, de cooperação, de empatia, de igualdade, de tolerância e, sobretudo, sem nunca desistir, nem sentir-se condicionada ou auto-censurar-se por ser mulher.
VITAIS – série #1
Mulheres com diferentes experiências de vida que impactam na forma como imaginam o mundo que as rodeia. Lidam de uma forma positiva com a doença, encontram soluções para a precariedade na cultura, apoiam e lutam pelos direitos de minorias, descobrem formas de viabilização económica para projectos alternativos, ultrapassam situações de violência doméstica, abraçam o associativismo como forma de encontrar respostas a questões sociais, projectam o nome do país no estrangeiro, olham para a cultura como uma forma inteligente de reflectir e questionar a sociedade, imigram para Portugal na procura de melhores condição de vida, ultrapassam irreparáveis perdas de pessoas próximas, ou acreditam que o ensino e a investigação são a solução para uma sociedade mais evoluída, diversificada e empática.

NANA ANJOS | PSICÓLOGA, SAÚDE E COMPORTAMENTO DESVIANTE
“No meu quotidiano procuro que as pessoas com quem trabalho se sintam mais confortáveis com quem são e que a diversidade humana seja valorizada e acolhida, por cada um de nós e pela sociedade. O sofrimento humano só pode ser aliviado onde a igualdade e a liberdade forem possíveis. Quando comecei a trabalhar, movia-me o entusiasmo e a certeza de que fazia parte da construção de um mundo melhor e este é um desejo que persiste em mim. Que seria se, pelo acaso de ser mulher, ficasse impedida de ser, fazer, sentir ou pensar?”

CARLOTA NERY | ESTUDANTE
“Do jornalismo à curadoria, do cerne da literatura ao resto do mundo, o que me move são as pessoas. Profissão e identidade ainda por definir (que nunca se definam), mas com os valores bem assentes. Faça-se o que se fizer, sirva-se o povo e a comunidade, e descarte-se o velho e o patriarcado. Como? Pela arte, sempre.”

MARIA GAMBINA | DESIGNER DE MODA
“É preciso sempre uma certa loucura para não desistir… talvez até seja mais importante que a teimosia”

GUI CASTRO FELGAS | ARQUITROLHA
“Ora diz lá outra vez que ‘ isto é trabalho para um homem ‘, diz, fdp”) …isto porque ja ouvi isto mil… mais de mil vezes, de pessoas na rua, a trabalhar como trolha. Parece impossível, mas é.“

AMARANTE ABRAMOVICI | REALIZADORA
“J’aime les gens qui doutent. Gosto das pessoas que duvidam (de si?) é um verso de Anne Sylvestre que me habita. Resistir. Para mim, funciona com um sinónimo de existir (e não desistir). É um modo de estar que me vem da minha mãe, e penso sempre nas ervas daninhas que crescem numa brecha do passeio de cimento. Tem também a ver com um certo modo de fazer cinema, sem dinheiro, sem equipas, e sem compromissos com o poder. Assim, ganhei a liberdade de escolher trabalhar com as pessoas que o poder invisibiliza, com as frágeis, as amadoras, as indecisas, as crianças, as que duvidam de si e que me fazem duvidar de mim.”

FRANCISCA VALENTE | GESTORA CULTURAL
“Mais essencial do que nunca num mundo doente em que os privilegiados (como eu) têm que ceder e partilhar os seus lugares de poder e benefício ! Resistir!! Encarar, permanecer, expor, argumentar, calar às vezes… outras vezes só existir … Lutar, sempre! Pela justiça, pela empatia, pela verdade, pela democracia e seus valores, pela igualdade, pela equidade. Contra a misoginia, a xenofobia, a homofobia, a transfobia e todas as demais fobias; contra o racismo, o esquecimento, o isolamento, a solidão, a pobreza e, tantas vezes, o egoísmo, a arrogância e a estupidez.”

ALEXANDRA OLIVEIRA | PROFESSORA UNIVERSITÁRIA / INVESTIGADORA / ACTIVISTA
“As mulheres lutam sempre, seja para pôr a comida na mesa, seja por um mundo melhor. Indigna-me a injustiça e, por isso, do meu lugar de privilégio, luto por mais justiça social. Movem-me as pessoas que são oprimidas, sem voz, marginalizadas, vítimas de desigualdade, alvo de discriminação. Muitas vezes, faço-o com raiva. Como diria a Maya Angelou, precisamos de raiva; precisamos dela para agir, falar, criar e resistir.”

JOANA CABRAL | PSICÓLOGA / PROFESSORA UNIVERSITÁRIA / ACTIVISTA
“Não desistir traz-me de imediato as palavras imaginação, amor e luta. Entendemos quase sempre as ideias de amor e luta como contraditórias. É por isso comum encontrar quem reaja negativamente às propostas anti ou contra – o racismo e o heterossexismo, por exemplo. A grande hipocrisia é apontar o dedo às pessoas que lutam por direitos, pela verdade, por uma liberdade e dignidade acessível a todas as pessoas, não exclusiva de algumas. É uma acusação desonesta, particularmente porque quase sempre antecedida de uma violência, ostensiva ou silenciosa, perante a qual se pede obediência ou cumplicidade. Mas uma pessoa que luta está acordada e plena de amor.
Um amor que imagina o mundo para lá dos limites e noções manipuladas do possível. Porque sabe que seremos aquilo que formos capaz de imaginar. Se a imaginação continuar refém das ideias de hierarquia e acumulação – de poder, dinheiro e tecnologia – como tem estado até aqui, é possível que não haja futuro para todes; se é que, a longo prazo, haverá para alguém. Mas a imaginação pode e dever ser outra coisa. Servir principalmente para inventar um futuro que seja alternativa em vez de continuidade.
Se juntar todas as causas e atividades em que estou envolvida, tem sido por isto que tenho lutado, dentro da sala de aula ou do consultório. Até na fila do supermercado. Por resgatar o direito para o exercício livre da imaginação. A titularidade e força dos nossos sonhos, pelos nossos possíveis. Imaginar e lutar com amor. Habitar e sentir o corpo para além do invólucro. Voltar a ser um ser entre outros na terra, não em cima desta e dos demais. Pregar a colaboração em vez da competição. Ativar e desbloquear, todo o poder da criação e criatividade que há num coletivo diverso de pessoas com livre acesso àS verdadeS e à imaginação.
Luta, amor, imaginação. Atos tão poéticos como políticos. Nada faz sentido sem que existam juntos!”

PAULA GUERRA | PROFESSORA UNIVERSITÁRIA
“Sou Professora desde 1991. Tive o privilégio de concretizar o que sempre quis ser. Professora. Aqui, estou eu numa sala de aulas na FLUP. O meu local de trabalho – que é também de estudo desde 1987. Sinto, desde sempre, uma contradição, em mim, em relação a este espaço de vida: alegria e melancolia. Também não posso deixar de recordar que esta foto me recorda a escolha da Sociologia como destino escolar e profissão, mostrando bem que esta escolha foi capaz de permitir o acesso a um espaço que, em termos profissionais, permitiria uma coincidência do meu mundo da vida e do meu futuro. Hoje, penso ser possível dizer que a escolha foi acertada, e que realmente me foi possível encontrar essa coincidência de mundos. Se a certeza me fugia aquando da escolha da Sociologia em 1987, a realização da minha Tese de Doutoramento – apresentada aqui em 2011 – foi o abraçar dessa possibilidade, a concretização da vontade de saber e o reencontro com a música. Por isso, apresento a seguir, Baudelaire. ”
A Música
Arrasta-me por vezes como um mar, a música!
Rumo à minha estrela,
Sob o éter mais vasto ou um teto de bruma,
Eu levanto a vela;
Com o peito para a frente e os pulmões inchados
Como rija tela,
Escalo a crista das ondas logo amontoadas
Que a noite me vela;
Sinto vibrar em mim inúmeras paixões
De uma nau sofrendo;
O vento, a tempestade e as suas convulsões
Sobre o abismo imenso
Embalam-me. Outras vezes é a calma, esse espelho
Do meu desespero!
(Baudelaire, 1993: 185)

HELENA SOFIA | PROFESSORA / INVESTIGADORA EM DESIGN
“Desistir não é opção. A posição de influência que se ocupa numa sala de aula, no contexto da prática profissional ou no exercício da cidadania, ao defender ideias e promover valores, é um lugar de responsabilidade. Ocupá-lo é um privilégio, por isso desistir não é opção.”

FILÓ | COZINHEIRA
“Não desistir é nunca desistir da vida, de gostar de mim própria e tentar ter sucesso em todos os aspectos da minha vida. Eduquei 4 filhos, a vida é boa, tenho saúde, tenho vida, há que lutar por ela. Nunca estudei, comecei a trabalhar cedo. Primeiro ensinaram-me a trabalhar e depois já era tarde para estudar, o que me levou sempre a ser forte. Sou feliz, sou uma mulher feliz!”

ELINA STOLDE | ETNOMUSICÓLOGA / COZINHEIRA VEGAN / COLETORA DAS PLANTAS, ALGAS E COGUMELOS / MÃE
“Quando era criança, li que as pessoas com o meu nome faziam a vida ao contrário. Até agora, aassim aconteceu. Frequentei o estudo clássico de História e Teoria Musical e mudei para Etno-musicologia, pois era algo novo, experimental e cheia de aventuras. Pemitiu-me aprender imenso sobre o mundo e diferentes culturas / tradições. Esse percurso levou-me até Portugal, onde acabei por aprender a cozinhar comida vegan. Novamente, algo universal pois trabalho sempre com pessoas de vários países. Faço parte de um coletivo auto-gerido. Apanho plantas, algas e cogumelos, o que me ensina a ser parte de natureza e, ao mesmo tempo, é o melhor passatempo do mundo. Apesar que não ter uma vida tradicional, adoro tradições que me fazem sentido. Canto música tradicional portuguesa e toco adufe, gosto imenso de ir a aldeia conviver e tocar com as pessoas de cada terra. Gosto de ir ao tasco. Tudo isto, representa a forma que encontrei de resistir e existir ao mesmo tempo.”

CAPICUA | ARTISTA
“A persistência tem sido um dos meus maiores trunfos. Às vezes, quando tenho vontade de desistir, percebo que normalmente é do cansaço. Depois de recarregar baterias, tenho sempre vontade de renovar os votos com a persistência. Até hoje, quase tudo o que fiz, devo a uma capacidade de resistir, a uma determinação, a uma persistência. O valor da persistência é indissociável do meu percurso artístico, da minha arte, de tudo que faço, que é empreender a partir das minhas ideias, das minhas emoções, das minhas causas. No fundo, cumprir uma visão, desenvolver uma ideia, um fio que vem da inspiração, até concretizar algo que possa ser partilhado com o público. Se não fosse a persistência, seria impossível fazer o que faço, pois o meu trabalho é mais feito de maratonas, do que de pequenos sprints.”

RENATA PORTAS | ENCENADORA / ACTRIZ / ESCRITORA / ERRANTE
“Desistir, resistir, existir. Aprender. Como se respira? Como se desacelera?
Às vezes tudo soçobra: tudo que achamos permanente. A casa, o corpo, a alma. A anima. Os gregos falavam da paixão. Troia resistiu dez anos.
O que é isto de resistir, num mundo em que assistimos zumbificados a crianças que saem de chamas em Gaza? (escrevo isto e assalta-me o pudor, porque tudo isto é da ordem da obscenidade, do que quase não cabe nas bocas). Mas pedem -me um texto sobre existir, não prostrar o joelho (penso em Andrómaca e nas mães de hoje).
Tombamos , tudo tomba, de vez em quando. No meio da nossa pequena e (in)significante vida, devotamos toda a nossa grega paixão a insistir em criar espaços de beleza e a desordem no mundo, mesmo que sacrifiquemos quase tudo. Tudo menos a anima.”

ANA DEUS | CANTORA
“Desisti muito e ainda não me arrependi. Será essa a minha insistência; seguir os desvios que me fazem sair da cama com razoável alegria.”

SUSANA BRAVO | ARTISTA
“Se tivesse de escolher um animal para me representar com o qual me identifico escolheria o castor. Este animal simboliza, para mim, a persistência e o nunca desistir. Tal como o castor, que constrói as suas barragens com paciência, engenho e dedicação, também eu encaro o meu processo artístico como uma construção constante. Mesmo quando aquilo que o castor constrói é destruído — seja pela natureza ou pela intervenção humana — o castor recomeça, sem hesitar. Essa resiliência espelha a minha forma de estar na arte: perante os desafios, recomeço, reinvento, e continuo. Para além disso, o castor vive entre dois mundos — a terra e a água — e essa dualidade representa bem a minha realidade enquanto artista, por um lado, há a dimensão criativa, intuitiva e livre; por outro, há a necessidade de viver daquilo que crio, de tornar essa expressão viável no mundo concreto. São dois espaços diferentes, mas que preciso de habitar em equilíbrio. Como o castor, tento adaptar-me e encontrar forma de construir algo sólido em ambos os mundos.”

KITTY FURTADO | INVESTIGADORA / ACTIVISTA
Cresci com a máxima “Resistir é Vencer” e é verdade que não desistir tem sido muitas vezes, para mim, sinónimo de resistir. Com o tempo, percebi que não desistir pode ser apenas fazer o que é esperado que façamos. A sociedade ensina-nos a ser resilientes, a aguentar e a seguir. Porém, ao não desistir também alimentamos um sistema que se apoia no nosso sofrimento e na nossa força. Hoje, penso que resistir pode ser um gesto de luta, mas só quando vem acompanhado de consciência crítica – quando questionamos o que nos pedem para suportar. Não serei forte para ajudar a manter o status quo. Não desistir é participar todos os dias de um esforço coletivo de transformação, que possibilita potencialmente a emergência de um mundo melhor do que mundo que conhecemos.

ROSITSA IVANOVA VASILEVA | ENGENHEIRA MÁQUINAS DE CONSTRUÇÃO CIVIL
“Sempre acreditei que nunca devemos fugir aos nossos princípios. É a única forma de mantermos a dignidade e não perder a personalidade.”

TERESA FABIÂO | BAILARINA / PROFESSORA / ARTIVISTA
“Sempre mirar o amor. Se permitir cair uma e outra vez, confiando que o chão é impulso. E que o caminho de volta torna-se mais suave. Confiar em mim, confiar na vida, confiar numa força que veio antes, que é maior do que eu e que me sustenta. Ser capaz de parar e de me cuidar. Inventar novos caminhos possíveis e, assim como a água, sempre caçar um jeito de continuar. Viver para tornar os sonhos realidade.”

ANDREIA GARCIA | ARQUITECTA
“Não desistir, para mim, é continuar — mesmo quando o que se vê de fora são conquistas e o que se vive por dentro são batalhas silenciosas. É manter a exigência, o rigor e o compromisso com tudo o que faço — na prática, na investigação, na docência, na curadoria — mesmo quando o corpo impõe pausas que não escolho. Entre uma inauguração e uma reunião, entre a docência e a escrita, há dias em que a única vitória é ter conseguido estar. E estar, nesses dias, é já não ter cedido. O que se reconhece como percurso é também feito de uma força que nunca se quis exibir, mas que sustenta tudo o resto.”

CLÁUDIA SOUSA SILVA | ENFERMEIRA
“´Não desistir´ parece uma conjugação de 2 palavras tão simples de definir e que muitos de nós fazemos consciente ou inconscientemente no nosso dia a dia. Qualquer um de nós já não desistiu de algo, alguém ou até de si próprio. Contudo é uma conjugação intensa, árdua e difícil. Todos os dias observo na primeira fila a personificação de não desistir… não desistir da família, dos amigos, de si próprio… da vida! Não desistir também é encarar o hoje como uma dádiva e fazer cada dia ter um significado especial! É avançar para o desconhecido com receio mas com a garra de quem luta por ter mais um amanhã! E, de uma forma controversa, não desistir é saber que as cortinas do palco da vida estão a fechar e desistir de as tentar abrir, terminando a peça de teatro com uma vénia e aceitando os aplausos de pé de todos aqueles que nos são íntimos.
No meio da pobreza material, ter riqueza de espírito e agradecer com o sorriso mais sincero cada pequena coisa que te é oferecida. Entender que o oceano é um conjunto de gotas e que cada um de nós faz diferença para melhorar a humanidade. Colocar a nossa bagagem às costas e subir a montanha focando-nos na beleza e no privilégio do caminho e não no alcance do cume. Não desistir é desistir do que não nos acrescenta como seres humanos e olhar para o outro com empatia e respeito.”

SUSANA GAUDÊNCIO | ARTISTA / INVESTIGADORA / PROFESSORA UNIVERSITÁRIA
“Não desistir
é: um exercício de endurance;
ampliar a escuta;
demorar-me no som; devolver a palavra;
atravessar a paisagem com olhos bem abertos;
recusar a abstenção;
afetar-me.
Não desistir é:
um exercício de cuidado;
insistir em aprender;
afirmar a voz;
praticar a liberdade;
pôr-me em bicos de pés;
acolher o encontro;
existir-me.”

RAFAELA GRANJA | SOCIÓLOGA / INVESTIGADORA
“Num mundo cada vez mais polarizado, onde a incompreensão se normaliza e as desigualdades se aprofundam, não desistir é, para mim, recusar a indiferença e continuar a imaginar outros futuros possíveis. A partir dos lugares de privilégio que ocupo, procuro contribuir investigando as vidas de quem é silenciado, amplificando as suas vozes e tornando visíveis histórias que tantas vezes preferimos ignorar. Ocupar este lugar exige escutar e questionar em igual medida. Mas, acima de tudo, exige a construção quotidiana de redes de cuidado, de empatia, de afecto e de resistência — lugares onde nos possamos ancorar e curar. Falho muitas vezes. Por isso, em alguns dias, não desistir é simplesmente acordar e querer estar do lado da transformação.”

MARIANA JONES | AUTORA
“AutoRetrato (em tempos de ódio)
“respirar amor aspirando liberdade”
Não desistir destes versos à flor da pele.
Eu passarinho, que voa e que pousa.
Poder parar, recuar ou recomeçar.
Poder escrever e permanecer. E resistir. E ir.”

RUTE BIANCA
Rute Bianca nasceu a 17 de Setembro de 1959 no Porto. Renasceu a 23 de Novembro de 1983 em Casablanca. Só em 2012 è que o seu nome foi reconhecido e inscrito no Bilhete de Identidade.
“Nasci diferente e fiz-me gente. Modifiquei o meu corpo, pu-lo de acordo com o que os olhos da minha alma viam. Quando me vi, chorei tanto, tanto. Era eu a nascer naquele corpo já grande. Era como se a outra pessoa nunca tivesse existido. Era linda e tive vários pretendentes que me fizeram sentir desejada. Mas qual Cinderela fugia sempre, antes que o feitiço acabasse. Depois de muito tempo encontrei o amor verdadeiro. Ele era maravilhoso, jovem, poderoso e todo, todo meu. Aceitou-me, amou-me e enfrentou a sociedade preconceituosa e vivemos este amor até que a morte nos separou. Vivíamos sempre com medo.
Só quero que não olhem para mim de lado, com nojo, com desprezo… Que me deixem passar e ser feliz. Cada vez que eu abro a porta, tenho de enfrentar o mundo. Numa determinada altura senti que tinha de dar a cara, falar por todas. Deixem-nos viver!”
Depoimento incluído na fanzine “O Enxoval: Tempo e Espaço de Resistência”, editado pela Associação Pele

MANUELA MATOS MONTEIRO | FOTÓGRAFA / GALERISTA
“Desistir é renunciar ao mundo, aos outros e, por isso, a nós próprios. A não inscrição, o não compromisso, a desvinculação com a vida apaga-nos do mapa da existência. É uma ausência, um adiamento, um não saber ser, é apagar-nos da cartografia da vida.”

MÁRCIA DIAS PAULO | EDUCAÇÃO E SAÚDE
“Tenho 45 anos, vivo uma incrível história de amor com o Pedro, há quase 30! Esta vida sempre foi gentil comigo. E eu sempre devolvi essa gentileza com gratidão, bondade e amor. Muito amor! Em 3 anos, esta mesma vida obrigou-me a enfrentar no papel de cuidadora incondicional. O cancro da minha mãe, o da minha melhor amiga e o do meu filho mais velho. A minha mãe sobreviveu! Mulher guerreira! A minha querida amiga, “a minha Dulce” desde que éramos crianças, a minha irmã de alma, cheia de valentia, despediu-se deste mundo aos 44 anos! E, 4 meses depois, entreguei no colo de Deus o meu querido filho Gabriel… Segurei-o com todo o meu amor no meu colo, desde que nasceu, até ao seu último suspiro! Foram curtos mas muito intensos e marcantes os seus 15 anos de passagem por este mundo. “Ele foi um anjo na Terra!”, todos nos dizem.
Com uma dor dilacerante que me rasgou por dentro, com o coração a sangrar para sempre, escolhi não desistir! O emprego também ficou pelo caminho, pois claro! Uma mulher que esteve de baixa para cuidar da mãe e logo de seguida do filho tanto tempo, neste país, é claro que o que tem da empresa a quem tanto deu, durante tantos anos, é o desemprego! Mas esta vida é sobre não desistir! Todo o amor e gratidão que demos à vida, a vida devolveu-nos em esperança, novas aprendizagens, infinitas possibilidades de evolução!
Decidi ser a Mãe que o meu filho Lourenço de 5 anos merece! Decidi mostrar-lhe e mostrar-me que apesar de dura, a vida é bela e que a morte é real. Decidi mostrar-lhe e mostrar-me que o amor cura todas as dores. Que o amor nos enche de oxigénio quando as saudades nos querem sufocar! Aprendi que não desistir é honrar a vida! A nossa e a do mano que tanto lutou contra um cancro tão agressivo, durante 14 meses!! Não desisti porque a vida está a ensinar-me a viver com um filho na Terra e outro ali no Céu!”

EDUARDA NEVES | PROFESSORA UNIVERSITÁRIA
“Tão pouco a morte configura uma desistência da vida. Apenas a diferença da nossa resistência ou o processo transgressivo de um movimento inacabado.”

CRISTINA TAVARES | MULHER / MÃE / PROFESSORA / JORNALISTA / MENTORA DAS ACESSIBILIDADES DA ASSOCIAÇÃO SALVADOR / TETRAPLÉGICA
“Não sou mais, nem menos do que qualquer outra pessoa! Sou apenas eu! Acima de tudo sou Mulher, Mãe, Professora, Jornalista, Mentora das Acessibilidades Da Associação Salvador, Tetraplégica. A minha vida sofreu uma reviravolta muito grande com o acidente que me atirou para uma cadeira de rodas, MAS depois do veredicto final do médico, agarrei-me à VIDA e lutei com forças vindas do Olimpo, para poder voltar a realizar tudo o que fazia antes, embora de forma adaptada à minha nova condição. Não tive tempo para chorar, revoltar-me contra o mundo, os meus filhos eram a minha prioridade, assim como mostrar a mim mesma, que por muitas adversidades que a vida traga, tenho que aproveitar ao máximo cada dia. Luto todos os dias pela inclusão, não só pelas pessoas com mobilidade reduzida, mas também noutras áreas, não consigo calar-me. Não baixo os braços, nem tenho vergonha das mudanças operadas no meu corpo. A minha cadeira, agora, faz parte de mim, assim como os óculos, que tenho de usar, são os meus olhos, a cadeira é o meu tronco e as minhas pernas. Não aceito o preconceito, e também não lido bem com o capacitismo. Somos todos diferentes, eu só optei pelo caminho mais agreste, pelo trabalho, pela resiliência, por não me conformar! A vida é para ser vivida, não condeno as opções de cada um, só pretendo mostrar que há muitas possibilidades de fazer a diferença, e de viver. Esta sou eu!”

MARIA DO BOM SUCESSO | MÉDICA ONCOLOGIA PEDIÁTRICA
“Ter tão pouco — e saber que esse pouco é mais do que suficiente. Continuar, mesmo quando a mente pede pausa e tudo à volta parece dizer que não vale a pena. Acreditar que, mesmo na sombra, posso fazer a diferença. Deixar para trás o que já não serve, com coragem. Manter-me fiel aos meus valores, mesmo quando o caminho é lamacento. Ficar inteira quando seria mais fácil ceder. Lançar pontes — entre pessoas, entre silêncios, entre a dor e a esperança. O meu trabalho exige tempo — tempo para escutar os outros, para decidir com clareza, para cuidar com consciência. Tempo também para mim, para os meus, para não me perder no que dou. Cuidar, mesmo quando o final é incerto, porque cada passo importa. Assumir a responsabilidade — por estar, por decidir, por acompanhar. Não desistir é ser profundamente humana. E continuar, porque sim.”

SUSANA PERALTA | ECONOMISTA
“ Tive a sorte de vir ao mundo na melhor metade do século passado; tal como a minha mãe e as minhas três tias do lado materno que, nascidas nas décadas de 50 e 60, têm cursos superiores. As minhas avós eram analfabetas. Das minhas cinco tias do lado do meu pai, que nasceram nas décadas de 30 e 40, só duas são escolarizadas; uma terminou a primária, outra nem isso. Troquei umas mensagens com o meu pai e ele descreveu assim o percurso da única irmã escolarizada: “Foi à escola já fora de horas, porque o avô foi obrigado. Chegou à terceira classe. Ainda hoje lê juntando as letras.” Não desistir é usar este privilégio único de ter voz para falar pelas mulheres da minha família que não a tiveram e por todas as outras silenciadas que andam por aí.”
JORNAL PÚBLICO / P3 | 6 AGOSTO 2025
SOBRE MIM
Sou um profissional com um percurso híbrido, onde a gestão, a música e a fotografia se entrelaçam num caminho coerente de comunicação e expressão. Estudei Gestão de Empresas e Produção Audiovisual, e entre 1995 e 2010 fui DJ residente em espaços como o Captain Kirk, Frágil, Musicbox e Lux. Ao longo desses anos, mantive uma relação próxima com o público nas pista de dança, mas também através da rádio, da edição de discos e da curadoria musical. Após esse período mais visível, continuei a trabalhar nos bastidores da música, em áreas como o agenciamento de artistas. A necessidade constante de comunicar e observar encontrou uma nova forma de expressão na fotografia, que se tornou, nos últimos anos, a minha linguagem principal. No meu trabalho fotográfico, exploro sobretudo as pessoas — os seus gestos, os seus silêncios, a forma como se movem no mundo e o impacto que têm na comunidade onde se inserem. Interessa-me as pessoas para além da sua aparência, e o modo como a convivência molda identidades. Acredito no processo como espaço de descoberta, onde a escuta e a observação nos levam além do que havíamos pensado. Atualmente, frequento o Master em Fotografia Artística no IPCI (Porto), com o objectivo de aprofundarr o meu olhar e reflectir sobre o que me rodeia.
AGRADECIMENTOS
Alexandra Balona, Alexandre Souto, Amílcar Correia, André Rodrigues, Bruno Silva, Inês Moura, IPCI, José Ferreira, José Manuel Maia, Lara Jacinto, Paulo Morgado, Ricardo Moura, Vera Carmo, Vitor Nieves e Tito Mouraz